5ª FASE DE TRABALHO


Abreviado não inocentemente para “PI”, o Projecto de Investigação pretende (tal como o historial de pesquisas em torno desta constante matemática) retomar, a cada nova fase, os princípios (artísticos e conceptuais) retidos anteriormente, na expectativa de lhes conseguir acrescentar uma anotação decimal diferenciante. Tendo-se dedicado, nos anos mais recentes, ao estudo d´A dimensão poética da espera – afirmação de uma ausência no trabalho do actor, este projecto, ao regressar agora tematicamente ao universo de Marcel Proust (por tomar À la recherche du temps perdu como obra motora para o seu projecto criativo), propõe-se agora sistematizar um primeiro ciclo de trabalho (2003-2008), pela concepção do espectáculo "Como um remador à deriva - proposta para um observatório do eterno desencontro amoroso de Proust".

Tendo, ao longo dos períodos de residência artística, desenvolvido um repertório de exercícios concebidos a partir de episódios concretos da obra emblemática de Proust e tendo, cada um deles, ficado codificado com uma música, foi entretanto definida uma estrutura concebida pela sequência de quatro exercícios relacionados com a visão proustiana do amor. Pela sua indeterminada repetição, a progressão do espectáculo define-se pela complexificação das tarefas que diferentemente se seguem.

Observando o exercício de cena, quantas vezes, de resto, como Proust, “vi e desejei imitar quando fosse livre de viver ao meu jeito, um remador que largando o remo se deitara de costas com a cabeça em baixo no fundo do seu bote e que deixando-se flutuar à deriva apenas podendo ver o céu que desfilava lentamente por cima de si levara na cara o antegosto da felicidade e da paz” (1º vol. d´Em busca do tempo perdido, citado na tradução de Pedro Tamen).

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DEMONSTRAÇÃO

Ficha técnica:
Projecto de Investigação de Ana Silveira Ferreira,
Assistido dramaturgicamente por Hugo Miguel Coelho,
Com Joana Cavaco,
Numa produção da ExQuorum.

O Projecto de Investigação apresentou na Sala Estúdio do Teatro Aveirense uma demonstração do trabalho de pesquisa em que se tem centrado, no âmbito da Maratona de Dança promovida pela REDE – Associação de Estruturas para a Dança Contemporânea.
A partir de uma única série de movimentos, sustentada numa estrutura mecânica, porém improvisada, procurámos demonstrar a espera, enquanto exercício cénico, em si.
A procura de uma concepção sistemática e mecanizante (porém improvisada) conduziram este processo a uma lógica matemática dos movimentos, cada vez mais exigente, onde o que “prevalece como determinante [para o corpo] é o propósito de cumprir um conjunto de regras numa específica ordenação no tempo” (RIBEIRO, António Pinto; Corpo a corpo – possibilidades e limites da crítica, Edições Cosmos, 1997: 97, referindo-se às práticas atléticas – não artísticas – do corpo).

4ª FASE DE TRABALHO

Ficha técnica:
Direcção: Ana Silveira Ferreira
Apoio à direcção: Hugo Miguel Coelho
Trabalho de actor: João Castro
Produção: Palavras Loucas Orelhas Moucas
Com o apoio da Câmara Municipal de Valongo

Apresentações públicas: 5, 6, 7, 8, 12, 13, 14 e 15 de Janeiro de 2006 no Centro Cultural de Alfena


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Estrutura das apresentações:

1- Entradas
São diariamente entregues (por escrito) ao João indicações relativas ao número de entradas, tipos de movimentos e locais das mesmas. Estas indicações, conhecidas pelo actor minutos antes da apresentação pública ter início, são, por ele, somadas às regras-gerais que pautam este exercício em qualquer apresentação, mesmo na ausência de indicações acrescidas. Trata-se assim de conciliar marcação e improvisação.

2- Bloco de improvisação
Para este bloco de exercícios, contamos com uma espécie de dicionário desenvolvido ao longo das sessões de trabalho: aos números correspondem acções, às letras correspondem complementos das acções, às músicas correspondem coreografias específicas e aos verbos corresponde um exercício de improvisação repetitiva e, a cada vez, mais diferenciada.
As indicações são dadas diariamente, perante o público, de forma aleatória, querendo fazer valer essa (evidente) dimensão poética da espera.

3- Exercício das cadeiras

As linhas no chão do palco abrem-nos a possibilidade de dividirmos o palco em 1, 4, 8 ou 16 quadrados:










A cada uma dessas possíveis divisões corresponde um jogo específico (uma ordem na disposição das cadeiras / um numero máximo e mínimo no primeiro quadrado; um único sentido para jogar ou os dois; uma progressão para os quadrados vazios; …) com os quadrados seleccionados. Como peças, usamos as cadeiras, colocadas estrategicamente segundo o jogo escolhido.

4- “Footfalls”, Samuel Beckett
Leitura encenada da peça “Footfalls” (1975), de Samuel Beckett.
O texto original, crivado de indicações didascálicas, levanta problemas de representabilidade.
A locução indicada do texto é lenta e com fraca projecção.
O desenho dos movimentos dos pés é-nos milimetricamente detalhado.
Cem pausas num texto de quatro páginas. Algumas dessas pausas devem ser longas…







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Incutida que está genericamente (…) a ideia de que na espera nada precisa de acontecer, é justamente aí que algo de muito precioso tem lugar, sem que o actor tenha, na maioria dos casos, consciência. Esta tendência para se pensar que no intervalo nada se passa (…) conduz o actor justamente para o contrário do que procuro contradizer: uma excessiva vontade ou pretensão em querer agir e, consecutivamente, um excesso de acção (e reacção). Crente de que não está em cena enquanto não age (psicológica ou fisicamente, segundo os cânones de uma qualquer escola trabalhada), deixa-se ficar num dos mais simples e funcionais exercícios de cena, pela concentração de apenas fazer-se obedecer, até aos limites, às direcções fornecidas. Assim, nesse momento, o actor aparece na sua mais inocente humildade e trabalha sem saber exactamente a verdadeira dimensão deste seu esforço – ele já não é só concentração e execução, ele age no plano do imprevisível e do sistemático involuntariamente.
Esta percepção (meramente empírica, até aqui) e a minha convicção de que existe nestas ideias algo que ainda não foi "definitivamente" explorado (esse estado intermédio precisa ser entendido enquanto acontecimento em si no trabalho do actor), quer cenicamente, quer filosoficamente, conduziram-me a esta quarta fase de trabalho.


(Excerto de um texto escrito em Setembro de 2005, incluído na folha de sala.)